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quinta-feira, 22 de maio de 2008

"Já estamos continuamente a ser expostos a lavagens ao cérebro"

A constatação do título, que pode ser lida aqui, é de António Damásio e serve de mote para o neurocientista português deixar o alerta para as pessoas estarem cada vez mais atentas à maneira como podem ser manipuladas pelos anúncios. Não só de publicidade comercial, visto que Damásio admite que, num futuro próximo, as neurociências possam ser utilizadas para fins menos inocentes como, por exemplo, "para promover determinadas políticas sociais ou determinados candidatos políticos".

É o neuromarketing em todo o explendor dos seus objectivos que passam não só por "atingir as pessoas" com os anúncios, mas descobrir como "influenciar as pessoas", como reconhece uma responsável da empresa Phd. Todavia, Damásio deixa uma má notícia para quem tenta prever - ou manipular - comportamentos: "somos fundamentalmente uma grande confusão" no que respeita ao uso da razão e da emoção. A única coisa que parece certa é que, conforme se concluiu neste estudo, a "racionalidade não exclui as emoções no consumo de mensagens simbólicas, mas também de bens e serviços".

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A percepção dos média pelos consumidores

Algumas das conclusões de um estudo encomendado pela Associação Portuguesa de Anunciantes (APAN). Aqui.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O neuromarketing vem aí. E a seguir???

Conforme se pode ler aqui, "o neuromarketing permite a detecção e análise de actividade no cérebro de forma não-evasiva, a fim de compreender a maneira de sentir e pensar das pessoas".

Enquanto não estivermos todos anestesiados convém ir pondo a questão ética: qual é a fronteira entre a forma evasiva e a forma não-evasiva e quem a delimita?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O que vale a participação do público na rádio e na TV?

Uma notícia e um artigo recentes, aqui e aqui, proporcionaram-me novos elementos de reflexão para aplicar à pergunta que dá título a este post e que, no fundo, retoma a ideia-chave da linha de investigação que venho desenvolvendo desde 2005, tendo em vista o conhecimento daquilo que está subjacente aos processos interactivos na rádio.

Alguns dos desafios levantados pela interacção que ocorre no espaço público mediático foram bem problematizados pelo jornalista e professor brasileiro Muniz Sodré: «Conversa-se na televisão, entrevistam-se personalidades ad nauseam, realizam-se audiências públicas nas várias instâncias do Legislativo, mas o resultado constante é a inanição dos discursos. Em outras palavras, o excesso de publicidade das expressões individuais não define aquele espaço em que se constitui politicamente a cidadania na sociedade ocidentalizada, isto é, o espaço público».

Ora, se o excesso de publicidade das expressões individuais já não chega para definir o espaço público, como poderemos vir a enquadrá-lo? Antes de mais, há que sublinhar que esta banalização e vulgarização dos discursos corresponde ao fim de um período em que coincidiam o espaço público e o espaço político. Por outro lado, na dita Sociedade da Informação, é o próprio conceito de cidadania que está também ele em mutação, alargando-se a outras vertentes para além do estritamente político.

Seguindo o pensamento de Muniz Sodré: "Na Era da Informação, as pessoas estariam mais voltadas para uma orientação relativa ao consumo ou ao entretenimento do que para a factualidade de natureza político-social tradicionalmente implicada nas notícias e nos debates relativos à condução política da sociedade." Sendo assim, parece certo que vamos ter de contar com o consumo e com o entretenimento para ajudar a definir o espaço público, conforme já desenvolvi aqui.

Todavia, a emergência de produtos mediáticos híbridos, nos quais a cidadania deixou de ser apenas sócio-política e passou a ter igualmente uma dimensão cultural e económica vinculada ao consumo, coloca novas questões. Já não basta saber o que vale a participação do público na rádio e na TV (a tal publicidade das expressões individuais no espaço público), mas também quanto vale essa mesma participação.

No Reino Unido, no ano passado, vieram a público vários escândalos envolvendo operadores televisivos que solicitavam a participação do público nos programas através da utilização menos ética de chamadas telefónicas de valor acrescentado. Agora, com o intuito de travar a desregulação daquilo a que poderemos chamar de "mercado do espaço público", o organismo regulador dos média ingleses (Ofcom), pretende instituir regras mais apertadas para os operadores. Segundo disse um responsável do Ofcom, "os telespectadores devem estar confiantes de que serão tratados de forma justa e consistente quando interagem com os programas televisivos”.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O fim de um mito?

"O consumo de rádio no carro não é tão dominante como as pessoas o percepcionam". Aqui.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

A lógica do consumo "pós-moralista"

No passado fim-de-semana, o filósofo francês Gilles Lipovetsky veio a Lisboa dizer que "é preciso corrigirmos o lugar que o consumo ocupa nas nossas vidas, fazendo-o em nome de uma ética das pessoas e não da felicidade". Embora admitindo que as satisfações materiais são ingredientes de uma vida feliz, Lipovetsky sublinhou que "o crucial é que as satisfações aconteçam fora dos paraísos passageiros do consumo". Todavia, manifestou-se "contra a postura hipócrita de alguns intelectuais que consideram que a evasão efémera é uma necessidade inferior". Longe estão as visões fundamentalmente escapistas e redutoras do consumo, segundo as quais as pessoas trabalhavam para consumir e, em seguida, consumiam-se a trabalhar, fechando um ciclo sem saída possível. Ao pugnar por "uma ecologia mais equilibrada da existência" corrigindo o lugar que o consumo ocupa em nome de uma ética das pessoas, Lipovetsky tende a associá-lo à cidadania, de modo a que o valor atribuído ao consumo possa ter uma expressão equiparável aos valores cívicos. Porque a cidadania mudou (já não é só sócio-política, é também económica e cultural) e o consumo também mudou (já não é só económico, é também sócio-político e cultural). Para um cidadão e consumidor particularmente atento à situação nos media é exemplar o quadro referencial elaborado por Michael Schudson no ensaio "Citizens, Consumers, and the Good Society". Advogando uma posição "pós-moralista" na análise da cultura de consumo, Schudson sustenta que é um erro identificar a acção política com motivações altruístas de dedicação à causa pública e, em oposição, identificar os comportamentos consumistas apenas com motivações de interesse próprio. Ambos os comportamentos - sustenta Michael Schudson - podem ser uma e outra coisa. Desde a década de 70 do século passado, com Jean Baudrillard e Guy Debord, sabemos que o consumo é uma ameaça para o equilíbrio do ser humano e a espectacularização um risco para a sociedade. Aos consumidores dos meios de comunicação social resta tentar fazer a apropriação do consumo e do espectáculo, veiculados pelos media, de molde a transformar ambos num leque de oportunidades para a cidadania.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Os produtos híbridos

A inovação que constituem os automóveis híbridos é apenas mais um sinal dos tempos no caminho que nos conduz ao futuro. Tal como nos veículos também nos media a tentativa de conjugação do melhor de dois ou mais mundos está a fazer carreira e parece ser esse o objectivo a atingir pelo menos ao nível do público do mainstream, porque as élites, essas, necessitarão sempre de produtos diferenciados. Não é por acaso que, nos EUA, o programa televisivo Daily Show, onde se conjuga a informação, o entretenimento e o activismo, capta já a maior parte do público entre os 18 e os 34 anos. Durante a campanha presidencial de 2004 o show recebeu mais espectadores daquela faixa etária do que os clássicos Nightline, Meet the Press, Hannity & Colmes e todas as emissões noticiosas da noite. Hoje em dia, é no Daily Show que grande parte dos jovens adultos norte-americanos busca o contacto com a realidade moldando os seus princípios de cidadania a partir de um programa cujo formato replica, com humor, uma emissão informativa clássica. Se transmutarmos o conceito para a realidade portuguesa facilmente concluímos que o programa "Diz que é uma Espécie de Magazine" dos Gato Fedorento é o exemplo de uma emissão que persegue objectivos similares tendendo a atingir o pleno no mesmo público-alvo. E já conseguiu impôr-se no mainstream chegando ao horário nobre da televisão pública nacional. Os diferentes formatos de informação e de entretenimento vão-se confundindo, cada vez mais, e não vale a pena diabolizar o infotainment tout court porque qualquer produto de consumo mediático, desde que seja profissionalmente conseguido e ética e deontológicamente irrepreensível, tem a mesma dignidade. Assim, uma emissão de informação e entretenimento pode ser tão importante para a prossecução dos valores de cidadania como um programa com um formato perfeitamente diferenciado como é o caso tratado neste resumo de um trabalho de investigação, onde se chega à conclusão de que não é mais possível manter em compartimentos estanques a cidadania e o consumo dos media. Mais não seja porque a política passou a adoptar as regras do mercado para o seu funcionamento, como se pode ler aqui (há quem diga que, hoje em dia, vota-se como quem compra e que estão em causa os próprios fundamentos da democracia). Neste contexto, a cidadania deixou de ser apenas sócio-política e passou a ter também uma dimensão cultural e uma dimensão económica, que a vincula necessariamente ao consumo. Assim, a emergência de produtos mediáticos híbridos, de que vínhamos falando, é o espelho desta realidade de confluência de valores e de instâncias até agora antagónicas e a generalização do infotainment, que recebeu um impulso decisivo com a televisão, está já a alastrar à rádio e aos jornais, embora convenha relembrar que a imprensa escrita nunca foi feita somente de informação pura e dura, sempre houve fait-divers e trivialidades à mistura com assuntos mais sérios, e na rádio a institucionalização do formato jornalístico tem pouco mais de três décadas. Vem isto a propósito das recentes reformulações editoriais no Diário de Notícias e no Rádio Clube Português. João Marcelino e Luís Osório protagonizam cada um daqueles dois projectos cujo objectivo é, assumidamente, ganhar mais leitores e mais ouvintes. Se no caso do Diário de Notícias, João Marcelino tenta conjugar dois géneros informativos alegadamente antagónicos - o jornalismo dito de referência e o jornalismo dito popular - relativamente ao Rádio Clube, Luís Osório desdobra a emissão apresentando ao longo do dia uma sucessão de diferentes formatos radiofónicos: informação pura e dura da manhã, informação mais light à tarde e programas de call in (de desporto e confessionais) à noite. Para o sucesso ou o fracasso que o DN e o RCP possam vir a ter deverão contribuir os dois aspectos acima referidos. Por um lado, o peso da marca ética e deontológica com que cada um dos responsáveis quiser cunhar o respectivo projecto. Por outro, o profissionalismo que conseguirem imprimir às equipas que dirigem. À partida, o desafio é igual para ambos. Porém, é bom lembrar que João Marcelino, quando chegou à redacção do DN, já nada lhe era estranho no mundo dos jornais, enquanto Luís Osório só quando chegou ao Rádio Clube começou verdadeiramente a entrar no mundo da rádio.

domingo, 18 de março de 2007

O futuro dos "media" sem mediadores?

A crescente interactividade proporcionada pelos media origina que os consumidores estão a tornar-se cada vez mais os produtores daquilo que consomem, num registo de circularidade que marca a era digital. Neste sentido, o circuito tende a fechar-se directamente entre produtores e consumidores, sem haver lugar a mediadores. Esta ligação directa entre produtores e consumidores terá outra consequência: mais tarde ou mais cedo a situação implicará o desvio das compensações atribuídas até agora aos mediadores para retribuir a componente produtiva dos consumidores. Estes, por enquanto, ainda se satisfazem com a abertura do palco que lhes é proporcionada consumando o egocasting e até admitem pagar para participar nos media, como pode ser visto neste resumo de um trabalho académico. Porém, há-de chegar uma altura em que os consumidores reivindicarão prestações pecuniárias, tal qual os profissionais que funcionam actualmente como mediadores. Seja como for, a concorrência será cada vez maior, devido ao espectro alargado de candidatos ao protagonismo, uma situação que servirá para a indústria refrear as veleidades retributivas dos cidadãos/consumidores. Nesse tempo, a cidadania será um conceito muito mais lato do que é hoje e o consumo não terá a carga condicionante que ainda mantém. Os consumos, ligados directamente à produção e à satisfação de necessidades cada vez mais individualizadas, serão entendidos como emancipadores, tal qual os contributos que cada um efectivar com vista a uma alargada participação cidadã.

terça-feira, 13 de março de 2007

Cidadãos e consumidores

A comissária europeia Meglena Kuneva quer "dar voz e poder aos 493 milhões de consumidores para moldarem o mercado na era da Internet." Segundo o DE, "com o projecto da Europa política suspenso e uma Comissão orientada para o mercado, a Europa dos cidadãos cede caminho à dos consumidores." Todavia, o cerne da questão não está em colocar dicotomicamente a Europa política e a Europa do mercado. O facto é que as duas realidades coexistem, estão cada vez mais interligadas e a situação verifica-se também ao nível dos consumos mediáticos, como se pode ver por aqui. Quem não quiser conceber este entrosamento, entre cidadania e consumo, arrisca-se a não arranjar chaves para abrir as portas do futuro.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Os novos consumos mediáticos

Na sequência do post “Pensar os jornais” de JPP, do feedback de leitores do ABRUPTO, e dos contributos para o debate lançados nos blogues INDÚSTRIAS CULTURAIS e BLOGUITICA, permito-me dar uma achega centrando-me no âmbito da interacção, apontada por PG como a saída para a crise por que passam os jornais. Ao competir com os novos consumos mediáticos gerados pelos audiovisuais e pela rede, a imprensa (nomeadamente a dita “de referência”) pode chegar a soluções para o impasse em que se encontra tirando partido das conclusões a que se vai chegando com as experiências interactivas noutros media. Neste resumo, que documenta um trabalho feito por mim no âmbito de um programa doutoral, pode ver-se como a interacção deixou de ser um fenómeno linear, sem estar exclusivamente vinculada quer a aspectos de consumo, por um lado, ou a aspectos de cidadania, por outro. Em vez disso, parece cada vez mais claro que a interacção estabelece correlações com a cidadania e com o consumo a partir de uma lógica em que uma nova prática cidadã interage directamente com a cultura do consumo através de um modelo de convivência que gera um novo paradigma de cidadania e que transforma o receptor em produtor. Assim, a crescente interacção vivida através dos media ajuda a explicar a emergência do conceito de cidadãos-consumidores, no qual a cidadania deixa de ter apenas uma dimensão sócio-política, mas passa também a ter uma dimensão sócio-comunicacional, cultural e económica. Por todo este conjunto de razões, a mudança em curso no sentido dos consumos mediáticos interactivos não pode deixar de levar em linha de conta que o perfil dos cidadãos (das elites e não só) se alterou e que tal como diz Pacheco Pereira “é preciso ir mais longe na análise da crise e pensar as questões de forma (…) como questões de conteúdo”.