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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A opinião da "vox pop." na rádio de palavra

Quando se discute tudo por todos (sejam eles muito, pouco ou nada qualificados), sem regras nem condições, acaba por não se debater realmente nada de substantivo. É entretenimento puro para tentar captar audiências. Do ponto de vista do espaço público o enriquecimento é nulo. Pelo contrário, cria-se ruído que serve apenas para atordoar os espíritos e mascarar os dados relevantes da realidade.

O que vale a opinião da "vox pop."? Normalmente nada, servindo apenas para preencher, de borla, o espaço dos média. Não faz doutrina quem quer, mas quem pode.

Será que a comunicação social deve promover a divulgação de todas as opiniões (incluindo palpites) ou apenas das opiniões relevantes, aquelas que são expressas por pessoas com algum tipo de qualificação e que têm a possibilidade de vir a fazer doutrina? A resposta parece-me óbvia. Os média têm de escolher: ou querem ser simplesmente alti-falantes da “vox populi” ou, em contrapartida, serem reconhecidos pelos critérios de selecção, escolha e edição das opiniões.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Paroles, paroles, paroles...

Um dos equívocos da chamada “rádio de palavra” é que tal formato não significa, necessariamente, informação apesar de, em muitas situações, os animadores e locutores surgirem, aos olhos de quem interage nas emissões, travestidos de jornalistas. A somar à confusão de papéis profissionais (que deveriam estar perfeitamente diferenciados) e à ausência de informação juntam-se, em muitos casos, modelos de entretenimento de duvidosa qualidade.

A este propósito, ouçam-se as horas e horas de emissão dedicadas, pelo RCP, à participação da selecção portuguesa no Euro 2008. Toda e qualquer futilidade serve para motivo de reportagem e conferências de imprensa, plenas de declarações vazias, têm direito a serem transmitidas em directo. Sem qualquer tratamento e sem serem sujeitas a critérios editoriais. Logo, onde não há edição, não há jornalismo. Sobra em propaganda o que fica a faltar em informação.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uma pergunta sobre a rádio de palavra

Com o advento do RCP (formato iniciado em Janeiro de 2007) entrou, definitivamente, no léxico radialista nacional a “rádio de palavra”, expressão derivada do inglês talk radio e apresentada, entre nós, como uma alternativa à rádio de notícias (news radio). O conceito foi definido pelo Director de Informação do RCP, Artur Cassiano, na Gala do 1º aniversário da estação, como uma forma específica de apresentar a actualidade, por contraponto a uma atitude inovadora de apresentar as notícias, papel que fora desempenhado pela TSF, rádio a que o próprio Artur Cassiano estivera ligado desde o início, faz agora vinte anos.

E o que caracteriza, então, esta forma distinta de apresentar a actualidade? Fundamentalmente, a participação de múltiplos convidados (mesmo que não se tenham confirmado as 20 personalidades todas as manhãs em estúdio, como prometera o Director da estação Luís Osório) com o intuito de pontuar, analisar e divulgar os aspectos que vão fazendo a história dos dias.

Chegado a este ponto, é altura de colocar a pergunta que me suscita dúvidas bastantes para problematizar a estruturação deste formato radiofónico.

No actual panorama mediático, em que o entretenimento tende a moldar a informação, em que os interesses comerciais se entrelaçam com critérios editoriais, em que as fontes profissionais dispõem de recursos humanos e técnicos que suplantam os próprios media, quem, em última instância, determina maioritariamente o quem e o quando no caudal de personalidades convidadas a participar numa rádio de palavra?

Numa primeira categoria, poderemos dizer que a participação dos ouvintes, seja em debates sobre assuntos públicos ou em espaços mais confessionais ou mais exibicionistas, é sempre, e em primeira instância, determinada pela estação, uma vez que a entrada em antena pressupõe uma inscrição prévia. No entanto, a experiência proporcionada pela audição de muitas horas destas emissões evidencia que não parece ser aplicado nem sequer um critério de participação que evite repetições, tal é o número dos mesmos ouvintes que é possível ouvir, recorrentemente, em antena. Resta saber se tal se deve à existência de grupos organizados que impedem a variabilidade de participações ou se resulta, pura e simplesmente, da escassez do auditório.

Numa segunda categoria, relativa às personalidades convidadas a participar na emissão, a pretexto deste ou daquele motivo – excluindo os comentadores habituais, esses, a priori, escolhidos pela estação, se bem que dentro dos condicionalismos do actual panorama mediático – acumulam-se no meu espírito uma série de interrogações, que passo a enunciar.

De entre todas as personalidades convidadas, qual a percentagem em que a iniciativa do convite partiu da estação, tendo em vista os seus próprios critérios? E quando é que se acedeu às propostas e insinuações de entidades externas, como agências de comunicação, assessorias, etc ? Aliàs, a mesma questão se pode pôr relativamente às notícias produzidas a partir das propostas das fontes profissionais. Estas iniciativas são, de um modo geral, aceites ou tendem a ser, maioritariamente, rejeitadas? Quanta conversa sobre livros, filmes, exposições ou peças de teatro configura simples acções de promoção, subestimando os critérios jornalísticos? Quantas instituições ou personalidades públicas ou privadas acedem à emissão apenas porque quem trata da sua imagem quis “vendê-las” e não porque quem detém a antena tivesse ido às compras?

Já sabemos que o mercado é um ponto de encontro onde se satisfazem compradores e e vendedores. Porém, haverá que salvaguardar especificidades inerentes à responsabilidade social que envolve o mercado mediático, pelo que os media não podem abdicar de ter uma palavra decisiva em cumprir a sua função de escolha, a sua matriz editorial.

Todas as questões acima expostas põem-se relativamente a qualquer formato radiofónico. Porém, colocam-se ainda com maior acuidade numa rádio de palavra na qual alguns dos espaços de debate, de entrevista e de participação dos ouvintes nem sequer são conduzidos por jornalistas.

Assim sendo, só uma rádio editorialmente blindada às insinuações do Estado e do Mercado, com recursos humanos qualificados e meios materiais consistentes, estará em condições de ser ela própria a definir toda a sua carteira de convidados, bem como a sua própria agenda mediática.

Caso contrário, a rádio de palavra corre o risco de transformar-se numa rádio de palavreado, sem qualquer consistência, ou, no pior dos casos, numa feira de vaidades de um circo mediático onde aparecem sucessivamente palhaços ricos e pobres, malabaristas, contorcionistas, animais mais ou menos selvagens e domadores.