Quando se discute tudo por todos (sejam eles muito, pouco ou nada qualificados), sem regras nem condições, acaba por não se debater realmente nada de substantivo. É entretenimento puro para tentar captar audiências. Do ponto de vista do espaço público o enriquecimento é nulo. Pelo contrário, cria-se ruído que serve apenas para atordoar os espíritos e mascarar os dados relevantes da realidade.
O que vale a opinião da "vox pop."? Normalmente nada, servindo apenas para preencher, de borla, o espaço dos média. Não faz doutrina quem quer, mas quem pode.
Será que a comunicação social deve promover a divulgação de todas as opiniões (incluindo palpites) ou apenas das opiniões relevantes, aquelas que são expressas por pessoas com algum tipo de qualificação e que têm a possibilidade de vir a fazer doutrina? A resposta parece-me óbvia. Os média têm de escolher: ou querem ser simplesmente alti-falantes da “vox populi” ou, em contrapartida, serem reconhecidos pelos critérios de selecção, escolha e edição das opiniões.
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Paroles, paroles, paroles...
Um dos equívocos da chamada “rádio de palavra” é que tal formato não significa, necessariamente, informação apesar de, em muitas situações, os animadores e locutores surgirem, aos olhos de quem interage nas emissões, travestidos de jornalistas. A somar à confusão de papéis profissionais (que deveriam estar perfeitamente diferenciados) e à ausência de informação juntam-se, em muitos casos, modelos de entretenimento de duvidosa qualidade.
A este propósito, ouçam-se as horas e horas de emissão dedicadas, pelo RCP, à participação da selecção portuguesa no Euro 2008. Toda e qualquer futilidade serve para motivo de reportagem e conferências de imprensa, plenas de declarações vazias, têm direito a serem transmitidas em directo. Sem qualquer tratamento e sem serem sujeitas a critérios editoriais. Logo, onde não há edição, não há jornalismo. Sobra em propaganda o que fica a faltar em informação.
A este propósito, ouçam-se as horas e horas de emissão dedicadas, pelo RCP, à participação da selecção portuguesa no Euro 2008. Toda e qualquer futilidade serve para motivo de reportagem e conferências de imprensa, plenas de declarações vazias, têm direito a serem transmitidas em directo. Sem qualquer tratamento e sem serem sujeitas a critérios editoriais. Logo, onde não há edição, não há jornalismo. Sobra em propaganda o que fica a faltar em informação.
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terça-feira, 18 de março de 2008
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Uma pergunta sobre a rádio de palavra
Com o advento do RCP (formato iniciado em Janeiro de 2007) entrou, definitivamente, no léxico radialista nacional a “rádio de palavra”, expressão derivada do inglês talk radio e apresentada, entre nós, como uma alternativa à rádio de notícias (news radio). O conceito foi definido pelo Director de Informação do RCP, Artur Cassiano, na Gala do 1º aniversário da estação, como uma forma específica de apresentar a actualidade, por contraponto a uma atitude inovadora de apresentar as notícias, papel que fora desempenhado pela TSF, rádio a que o próprio Artur Cassiano estivera ligado desde o início, faz agora vinte anos.
E o que caracteriza, então, esta forma distinta de apresentar a actualidade? Fundamentalmente, a participação de múltiplos convidados (mesmo que não se tenham confirmado as 20 personalidades todas as manhãs em estúdio, como prometera o Director da estação Luís Osório) com o intuito de pontuar, analisar e divulgar os aspectos que vão fazendo a história dos dias.
Chegado a este ponto, é altura de colocar a pergunta que me suscita dúvidas bastantes para problematizar a estruturação deste formato radiofónico.
No actual panorama mediático, em que o entretenimento tende a moldar a informação, em que os interesses comerciais se entrelaçam com critérios editoriais, em que as fontes profissionais dispõem de recursos humanos e técnicos que suplantam os próprios media, quem, em última instância, determina maioritariamente o quem e o quando no caudal de personalidades convidadas a participar numa rádio de palavra?
Numa primeira categoria, poderemos dizer que a participação dos ouvintes, seja em debates sobre assuntos públicos ou em espaços mais confessionais ou mais exibicionistas, é sempre, e em primeira instância, determinada pela estação, uma vez que a entrada em antena pressupõe uma inscrição prévia. No entanto, a experiência proporcionada pela audição de muitas horas destas emissões evidencia que não parece ser aplicado nem sequer um critério de participação que evite repetições, tal é o número dos mesmos ouvintes que é possível ouvir, recorrentemente, em antena. Resta saber se tal se deve à existência de grupos organizados que impedem a variabilidade de participações ou se resulta, pura e simplesmente, da escassez do auditório.
Numa segunda categoria, relativa às personalidades convidadas a participar na emissão, a pretexto deste ou daquele motivo – excluindo os comentadores habituais, esses, a priori, escolhidos pela estação, se bem que dentro dos condicionalismos do actual panorama mediático – acumulam-se no meu espírito uma série de interrogações, que passo a enunciar.
De entre todas as personalidades convidadas, qual a percentagem em que a iniciativa do convite partiu da estação, tendo em vista os seus próprios critérios? E quando é que se acedeu às propostas e insinuações de entidades externas, como agências de comunicação, assessorias, etc ? Aliàs, a mesma questão se pode pôr relativamente às notícias produzidas a partir das propostas das fontes profissionais. Estas iniciativas são, de um modo geral, aceites ou tendem a ser, maioritariamente, rejeitadas? Quanta conversa sobre livros, filmes, exposições ou peças de teatro configura simples acções de promoção, subestimando os critérios jornalísticos? Quantas instituições ou personalidades públicas ou privadas acedem à emissão apenas porque quem trata da sua imagem quis “vendê-las” e não porque quem detém a antena tivesse ido às compras?
Já sabemos que o mercado é um ponto de encontro onde se satisfazem compradores e e vendedores. Porém, haverá que salvaguardar especificidades inerentes à responsabilidade social que envolve o mercado mediático, pelo que os media não podem abdicar de ter uma palavra decisiva em cumprir a sua função de escolha, a sua matriz editorial.
Todas as questões acima expostas põem-se relativamente a qualquer formato radiofónico. Porém, colocam-se ainda com maior acuidade numa rádio de palavra na qual alguns dos espaços de debate, de entrevista e de participação dos ouvintes nem sequer são conduzidos por jornalistas.
Assim sendo, só uma rádio editorialmente blindada às insinuações do Estado e do Mercado, com recursos humanos qualificados e meios materiais consistentes, estará em condições de ser ela própria a definir toda a sua carteira de convidados, bem como a sua própria agenda mediática.
Caso contrário, a rádio de palavra corre o risco de transformar-se numa rádio de palavreado, sem qualquer consistência, ou, no pior dos casos, numa feira de vaidades de um circo mediático onde aparecem sucessivamente palhaços ricos e pobres, malabaristas, contorcionistas, animais mais ou menos selvagens e domadores.
E o que caracteriza, então, esta forma distinta de apresentar a actualidade? Fundamentalmente, a participação de múltiplos convidados (mesmo que não se tenham confirmado as 20 personalidades todas as manhãs em estúdio, como prometera o Director da estação Luís Osório) com o intuito de pontuar, analisar e divulgar os aspectos que vão fazendo a história dos dias.
Chegado a este ponto, é altura de colocar a pergunta que me suscita dúvidas bastantes para problematizar a estruturação deste formato radiofónico.
No actual panorama mediático, em que o entretenimento tende a moldar a informação, em que os interesses comerciais se entrelaçam com critérios editoriais, em que as fontes profissionais dispõem de recursos humanos e técnicos que suplantam os próprios media, quem, em última instância, determina maioritariamente o quem e o quando no caudal de personalidades convidadas a participar numa rádio de palavra?
Numa primeira categoria, poderemos dizer que a participação dos ouvintes, seja em debates sobre assuntos públicos ou em espaços mais confessionais ou mais exibicionistas, é sempre, e em primeira instância, determinada pela estação, uma vez que a entrada em antena pressupõe uma inscrição prévia. No entanto, a experiência proporcionada pela audição de muitas horas destas emissões evidencia que não parece ser aplicado nem sequer um critério de participação que evite repetições, tal é o número dos mesmos ouvintes que é possível ouvir, recorrentemente, em antena. Resta saber se tal se deve à existência de grupos organizados que impedem a variabilidade de participações ou se resulta, pura e simplesmente, da escassez do auditório.
Numa segunda categoria, relativa às personalidades convidadas a participar na emissão, a pretexto deste ou daquele motivo – excluindo os comentadores habituais, esses, a priori, escolhidos pela estação, se bem que dentro dos condicionalismos do actual panorama mediático – acumulam-se no meu espírito uma série de interrogações, que passo a enunciar.
De entre todas as personalidades convidadas, qual a percentagem em que a iniciativa do convite partiu da estação, tendo em vista os seus próprios critérios? E quando é que se acedeu às propostas e insinuações de entidades externas, como agências de comunicação, assessorias, etc ? Aliàs, a mesma questão se pode pôr relativamente às notícias produzidas a partir das propostas das fontes profissionais. Estas iniciativas são, de um modo geral, aceites ou tendem a ser, maioritariamente, rejeitadas? Quanta conversa sobre livros, filmes, exposições ou peças de teatro configura simples acções de promoção, subestimando os critérios jornalísticos? Quantas instituições ou personalidades públicas ou privadas acedem à emissão apenas porque quem trata da sua imagem quis “vendê-las” e não porque quem detém a antena tivesse ido às compras?
Já sabemos que o mercado é um ponto de encontro onde se satisfazem compradores e e vendedores. Porém, haverá que salvaguardar especificidades inerentes à responsabilidade social que envolve o mercado mediático, pelo que os media não podem abdicar de ter uma palavra decisiva em cumprir a sua função de escolha, a sua matriz editorial.
Todas as questões acima expostas põem-se relativamente a qualquer formato radiofónico. Porém, colocam-se ainda com maior acuidade numa rádio de palavra na qual alguns dos espaços de debate, de entrevista e de participação dos ouvintes nem sequer são conduzidos por jornalistas.
Assim sendo, só uma rádio editorialmente blindada às insinuações do Estado e do Mercado, com recursos humanos qualificados e meios materiais consistentes, estará em condições de ser ela própria a definir toda a sua carteira de convidados, bem como a sua própria agenda mediática.
Caso contrário, a rádio de palavra corre o risco de transformar-se numa rádio de palavreado, sem qualquer consistência, ou, no pior dos casos, numa feira de vaidades de um circo mediático onde aparecem sucessivamente palhaços ricos e pobres, malabaristas, contorcionistas, animais mais ou menos selvagens e domadores.
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