terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Infoinclusões... dos outros

Angola: uma prostituta cara. De BateBola no blogdabola.
Um plano tão novo como a criação do Mundo. De Emídio Fernando no correio preto.
Disfarce para burlar a legislação e a ética. De Rafael Fortes no Observatório da Imprensa.

O futuro dos media

O futuro dos media em geral, e da rádio em particular, suscita-me mais questões éticas, deontológicas ou sociológicas do que propriamente preocupações quanto à evolução tecnológica. Neste particular, concordo em absoluto com o que escreveu aqui o prof. Rogério Santos: "Além de tudo, gostaria que a habitual análise do meio chamado rádio fosse feita com um menor peso de determinismo tecnológico. O mesmo se aplica ao estudo da televisão e dos jornais de papel. O brilho dos gadgets inebria-nos. Primeiro foi a rádio, depois a televisão, agora a internet. Deles se falou no começo como se fossem redentores, trouxessem o conhecimento em si e a harmonia social. A compra de um aparelho não explica o impacto social, os consumos, as tendências, o futuro."

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

E se a televisão falhasse?

O que eu gostava mesmo de ver era uma quebra na transmissão televisiva, durante os jogos de futebol no estrangeiro das equipas portuguesas, para perceber como resolviam a situação os relatores de rádio que simulam estar no estádio e, afinal, fazem o relato no estúdio vendo a televisão.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Os opinadores

Depois de Dias Loureiro ter assumido o que assumiu no caso BPN, jornalistas, políticos e comentadores não perderam tempo a invectivar Cavaco Silva por manter o seu antigo Ministro da Administração Interna no Conselho de Estado, aparentemente sem terem tido em atenção o que diz o Estatuto dos Membros daquele orgão. Só quando Luciano Alvarez do Público fez o trabalho de casa é que ficámos a saber que em lado algum do Estatuto dos Membros do Conselho de Estado é dito que o Presidente da República pode demitir ou retirar a confiança aos conselheiros, nem mesmo os nomeados pelo Chefe de Estado.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Jornalismo em directo nos audiovisuais

A entrevista do major Valentim Loureiro ontem à noite na TVI ilustra, de forma exemplar, as debilidades do jornalismo em directo nos audiovisuais. E mostra mais um aspecto do colapso da informação perante as fontes. De facto, são elas que, cada vez mais, ditam as regras. Numa entrevista como a de ontem, onde é que está a capacidade de edição do jornalista, se as perguntas são atropeladas sistematicamente pelo entrevistado que acaba, inclusivé, em tom jocoso a dizer ao jornalista para se preparar melhor da próxima vez? Como é possível, numa situação daquelas, hierarquizar e enquadrar as respostas?

Uma alternativa possível seria adoptar a postura do comediante Jon Stewart, no Daily Show, um programa cujo formato replica com humor uma emissão informativa clássica. Na sua actuação, Stewart corta cerce qualquer possibilidade de não ser ele a conduzir as entrevistas usando as mesmas técnicas dos entrevistados, por mais exuberantes que eles se apresentem.

Entrevistar "à séria" nos audiovisuais pode revelar-se uma missão suicidária para o jornalista e para o jornalismo. Nesse caso, a informação deixa de ser um exercício de busca do rigor, servindo apenas para alimentar o circo mediático. Deixa, aliàs, de ser jornalismo, passando apenas a ser um espectáculo, de duvidosa qualidade.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Pacheco Pereira na rádio

A maior fragilidade da rubrica "Vírus" de Pacheco Pereira no RCP (2ª a 6ª feira às 09h20, com repetição às 17h50) é a evidência com que surge um manto didáctico envolvendo os temas que o autor acha por bem tratar. E é isso que liquida, à partida, este projecto radiofónico. Uma rubrica de rádio deverá, obviamente, ter substância, mas não pode ser isso que sobressai. Para quem escuta, o primeiro nível de atenção é lúdico e vai para o "embrulho sonoro da embalagem", donde resulta que na rádio a forma não possa nunca ser descurada. Ora, o tratamento ao nível da sonoplastia, dos tempos de locução, dos ritmos, são matérias que Pacheco Pereira obviamente não domina, para além de uma voz monocórdica deitar por terra qualquer aproximação a uma composição radiofónica esteticamente atraente. No fundo, Pacheco Pereira limita-se a produzir um comentário pobremente sonorizado que aparece travestido de uma peça radiofónica. E uma rubrica deste género, ainda por cima numa rádio comercial, não pode constituir-se num segmento de uma rádio-escola.

Ao começar a reflectir e a teorizar sobre estas questões, já lá vão 35 anos, proclamei que "é necessário ultrapassar a fase da rádio didáctica". No momento actual, em que se regista um notório incremento das condições para a interactividade, a responsabilidade é ainda maior. "O estímulo do emissor, quando a forma de impacto for a mais correcta, acaba de vez com a passividade cíclica do receptor e obriga-o, quanto mais não seja, a raciocinar. Eventualmente a agir. Além do mais, este processo é muito mais criativo. Obriga-nos a pensar não só no que se deve dizer, mas na forma mais correcta de emitir a mensagem."

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Interesse colectivo e interesses particulares

Em Agosto, o ex-director do Diário Económico, André Macedo, deixou o jornalismo, actividade na qual se presume a defesa do interesse colectivo, e aceitou abraçar a direcção de comunicação da LPM onde, obviamente, iria defender os interesses particulares dos clientes da agência de comunicação.

Após um dia nas novas funções achou que tinha escolhido mal e depressa e abandonou a direcção de comunicação da LPM.

Será que vamos ver, em breve, André Macedo a pugnar novamente pelo interesse colectivo num qualquer orgão de comunicação social?

domingo, 7 de setembro de 2008

Comunista publica Pacheco Pereira


Estávamos em 1968 e o nome de José Pacheco Pereira começava a aparecer nos jornais. Neste caso, trata-se da edição de 23 de Janeiro de 1968 do suplemento "Juvenil" do Diário de Lisboa, que acolheu um escrito de Pacheco Pereira sobre "Exposições no Porto". O "Juvenil" era, então, dirigido com o crivo rigoroso do comunista Mário Castrim, que ficou conhecido como um impiedoso crítico de televisão na época que antecedeu o 25 de Abril.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A "Vida Mundial" há 40 anos


Em 1968, a revista “Vida Mundial” fazia jus ao nome e apresentava uma panorâmica possível do que se passava pelo mundo. Uma tarefa, apesar de tudo, viável devido ao menor escrutínio por parte da censura em comparação com os temas que tinham a ver com a “vida nacional”, manifestamente minoritários conforme se pode verificar no sumário deste nº 1501.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Medalha de ouro para o melhor sketch

Qual Gato Fedorento, qual carapuça!!! Isto é que é um sketch a sério...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A informação dada deve-se olhar o dente

"Dar mais ou menos cobertura jornalística sobre um determinado assunto não deve ser também determinado pela informação que os protagonistas desse mesmo caso disponibilizam. Mas é isso infelizmente que muitas vezes acontece."

João Adelino Faria, "Diário Económico", 4 de Agosto de 2008

sexta-feira, 25 de julho de 2008

De quem é a culpa?

Liga-se o rádio e ouve-se um ouvinte participante num dos programas de phone-in em directo chamar filho da p. ao primeiro-ministro (programa "Posto de Escuta" do RCP no dia 25/7/2008, pouco antes da 1 hora da manhã).

Para se chegar a este ponto, nos programas genericamente conhecidos por fóruns, poder-se-iam ensaiar várias explicações: inexperiência ou falta de perfil para quem conduz emissões deste tipo, desresponsabilização de quem insulta, calunia ou difama. Porém, do meu ponto de vista há, sobretudo, a ausência de uma definição clara das regras de participação. E isso deve-se aos responsáveis máximos de cada meio de comunicação social.

A busca de audiências a todo o custo tem levado, frequentemente, a varrer para debaixo do tapete as questões éticas e deontológicas. Passo a passo vai-se deixando pisar o risco cada vez mais à frente criando a falsa ideia de que entrar em directo na rádio e na televisão é o mesmo que falar na sala de estar ou na mesa do café. Sem sublinhar, reiteradamente, que a expressão pública de uma qualquer posição envolve todos os tipos de responsabilização, inclusívé, criminal.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A apresentação em rádio

"(...) Tudo dominado por apresentadores (DJs, if you must) que parecem nunca ter saído da sua sala de estar a contar anedotas mais ou menos machistas para uma plateia entediada." - João Lopes em sound + vision: Ouvindo a(s) rádio(s).

quarta-feira, 9 de julho de 2008

As boas notícias, o optimismo e as “agendas” escondidas

Quando ouço alguém fazer a distinção entre “boas” e “más” notícias pelo tom positivo ou negativo e não aferindo-as pelos critérios de noticiabilidade, sobretudo se for um jornalista a fazê-lo, fico logo de pé atrás.

Das duas uma: ou é ingénuo ou tem uma “agenda própria” escondida, que passará por um posicionamento ao lado de um qualquer poder mais do que na defesa do jornalismo.

Por norma, são os governos e as autoridades que assumem o papel de sublinhar o tom positivo da informação pública. Habitualmente, com pudor. Outras vezes descaradamente, como aconteceu recentemente na Roménia.

O jornalismo, ao contrário da propaganda, não é positivo nem negativo. Por isso, quando se ouve invocar a defesa das “boas” notícias vs. as “más” notícias convém parar para pensar e ver a quem interessa o alastrar da onda de optimismo.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A invasão dos marcianos


Passam este mês 50 anos. Às 20 horas e 5 minutos do dia 25 de Junho de 1958 a Rádio Renascença iniciava a transmissão de "A invasão dos marcianos", uma emissão que constituiu um marco inovador na produção e realização radiofónica em Portugal. Este trabalho de Matos Maia replicava no nosso país, o programa feito 20 anos antes, nos EUA, por Orson Welles a partir de "A Guerra dos Mundos", um romance original de H.G. Wells, adaptado para rádio com um guião em forma de noticiário. Apesar de ser um remake e de, também entre nós, ter sido apresentado como uma ficção científica radiofónica, nem por isso o programa deixou de ter um enorme impacto junto de milhares de ouvintes e o próprio Matos Maia acabou por ir ter de prestar declarações à PIDE, a polícia política do regime de Salazar, no final da emissão.


Na transcrição do guião do programa, que o livro acima reproduz, pode avaliar-se um dos grandes méritos da adaptação, justamente aquele que diz respeito à utilização das técnicas mais adequadas para relatar um acontecimento: reportagens, entrevistas com testemunhas, opiniões de especialistas e autoridades, efeitos sonoros e som ambiente. Todos estes ingredientes, apresentados sequencialmente em episódios exaltantes seguidos de pausas para respiração, constituem uma autêntica lição de jornalismo radiofónico. Antecipando o que viria a ser feito, mais tarde, nas rádios de notícias - o acompanhamento em directo de acontecimentos extraordinários - o programa "A invasão dos marcianos" ficciona a transformação numa emissão contínua dedicada ao acompanhamento exaustivo de uma determinada situação após a transmissão de um breaking news interrompendo a programação normal.

sábado, 31 de maio de 2008

"Uma espécie de fórum"

O conceito não é dos Gato Fedorento nem tão pouco se trata de um sucedâneo do "Diz Que É Uma Espécie de Magazine". A ideia é do director da TSF que anunciou aqui que a estação vai ter "uma espécie de fórum" dando a palavra aos ouvintes nas vésperas dos jogos do Euro.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Paroles, paroles, paroles...

Um dos equívocos da chamada “rádio de palavra” é que tal formato não significa, necessariamente, informação apesar de, em muitas situações, os animadores e locutores surgirem, aos olhos de quem interage nas emissões, travestidos de jornalistas. A somar à confusão de papéis profissionais (que deveriam estar perfeitamente diferenciados) e à ausência de informação juntam-se, em muitos casos, modelos de entretenimento de duvidosa qualidade.

A este propósito, ouçam-se as horas e horas de emissão dedicadas, pelo RCP, à participação da selecção portuguesa no Euro 2008. Toda e qualquer futilidade serve para motivo de reportagem e conferências de imprensa, plenas de declarações vazias, têm direito a serem transmitidas em directo. Sem qualquer tratamento e sem serem sujeitas a critérios editoriais. Logo, onde não há edição, não há jornalismo. Sobra em propaganda o que fica a faltar em informação.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

"Já estamos continuamente a ser expostos a lavagens ao cérebro"

A constatação do título, que pode ser lida aqui, é de António Damásio e serve de mote para o neurocientista português deixar o alerta para as pessoas estarem cada vez mais atentas à maneira como podem ser manipuladas pelos anúncios. Não só de publicidade comercial, visto que Damásio admite que, num futuro próximo, as neurociências possam ser utilizadas para fins menos inocentes como, por exemplo, "para promover determinadas políticas sociais ou determinados candidatos políticos".

É o neuromarketing em todo o explendor dos seus objectivos que passam não só por "atingir as pessoas" com os anúncios, mas descobrir como "influenciar as pessoas", como reconhece uma responsável da empresa Phd. Todavia, Damásio deixa uma má notícia para quem tenta prever - ou manipular - comportamentos: "somos fundamentalmente uma grande confusão" no que respeita ao uso da razão e da emoção. A única coisa que parece certa é que, conforme se concluiu neste estudo, a "racionalidade não exclui as emoções no consumo de mensagens simbólicas, mas também de bens e serviços".

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Nuno Markl na redacção da Comercial


Foi no início dos anos 90. Eu era o seu editor e nunca me deixou ficar mal. Nem sequer neste desenho com algumas figuras da redacção em que me colocou no lado direito da imagem ponderando, calma e serenamente, os ímpetos da cadeia hierárquica.

Bobby McFerrin: gostos discutem-se?

Voz prodigiosa não significa grande concerto.
Bobby McFerrin espantoso.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Infoinclusões... dos outros

Folclore-68. De Rui Bebiano em A Terceira Noite.
Os fumos de Bettencourt Resendes. De masson no Almocreve das Petas.
Breaking news in tugalândia. De josé na Grande Loja do Queijo Limiano.

A percepção dos média pelos consumidores

Algumas das conclusões de um estudo encomendado pela Associação Portuguesa de Anunciantes (APAN). Aqui.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Infoinclusões... dos outros

"Nós fizemos as contas" diz ela. De Miguel Carvalho no A Pente-Fino.
Coisas da Sábado: insuportável vazio. De José Pacheco Pereira no Abrupto.
A cor do poder. De Viriato n' O albergue espanhol.

Jornalismo positivo?

Segundo informa aqui o JN, a RTP estreia hoje um programa semanal de 30 minutos com informação positiva.

A discriminação positiva do chamado "jornalismo positivo" é um contra-senso do próprio jornalismo, cuja essência é dar notícia de factos relevantes, sejam eles "positivos", "neutros" ou "negativos". Os governos e as autoridades, essas sim, é que assumem o papel de sublinhar o lado "positivo" da informação pública.

Sobre o assunto, Eduardo Cintra Torres já disse tudo o que havia a dizer num artigo do jornal Público (link só para assinantes) que termina assim:

«fiquei com a barriga cheia de "jornalismo positivo" antes do 25 de Abril: todos os dias no Telejornal Américo Tomás inaugurava barragens e visitava edifícios maravilhosos ao som da sinfonia À Pátria de Viana da Mota. E, quanto às notícias de crimes, já se sabe: Salazar proibiu-as na primeira página dos jornais. Salazar preferia manchetes de "jornalismo positivo".»

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Acumulação de dados

"Não estamos numa sociedade de pensamento, mas apenas de acumulação de dados" - Vitorino Magalhães Godinho ao Expresso de 10/05/2008

sábado, 10 de maio de 2008

A oportunidade perdida da RTP

O Telejornal da RTP teve ontem a oportunidade de marcar a diferença face às televisões privadas. E não o fez.

Como já vem sendo habitual foi marcada para as oito da noite mais uma conferência de imprensa, no caso para divulgar a posição do Futebol Clube do Porto face à pena que lhe foi imposta pela Comissão Disciplinar da Liga. À hora estabelecida, lá estavam a TVI e a SIC transmitindo, em directo, tudo aquilo que o presidente do FCP ia dizendo até anunciar o que, efectivamente, era notícia.

Ainda tive a veleidade de pensar que a RTP não se ia subjugar, desta vez, à ditadura das conferências de imprensa às oito. Mas não. Mal acabou a peça gravada que estava a ser transmitida, também a televisão pública foi em directo para o Dragão. E, afinal, tinha sido possível sabermos, em tempo útil, da notícia (que o FCP não ia recorrer, mas Pinto da Costa ia) sem termos de ouvir grande parte da declaração do presidente do FCP.

Com a tecnologia actualmente existente poderia ter sido gravada a declaração e editada uma peça instantes depois. Mas assim foi mais fácil. Mais uma vez a informação demitiu-se de fazer o seu papel continuando a deixar que seja a ficção a mostrar o que há de melhor na edição em televisão. É só ver as novelas!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O neuromarketing vem aí. E a seguir???

Conforme se pode ler aqui, "o neuromarketing permite a detecção e análise de actividade no cérebro de forma não-evasiva, a fim de compreender a maneira de sentir e pensar das pessoas".

Enquanto não estivermos todos anestesiados convém ir pondo a questão ética: qual é a fronteira entre a forma evasiva e a forma não-evasiva e quem a delimita?

terça-feira, 6 de maio de 2008

Até onde vamos chegar?

Metro: Crianças são directores por um dia
Até onde vamos chegar enquanto se fizer crer que todos podem fazer tudo e opinar sobre o que quer que seja? À descredibilização total!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Há jornalismo na blogosfera?

Há, sim senhor!... Com estados de alma. Como há na crónica, no comentário ou mesmo na reportagem.

domingo, 4 de maio de 2008

A edição em televisão

Nem de propósito! António Barreto, na sua coluna do Público de hoje sobre os "directos" em televisão, retoma o pano de fundo da questão por mim aflorada, aqui, relativamente à subvalorização a que se assiste na edição em rádio.

«Os jornalistas fazem cada vez menos a "edição" das "peças", das imagens e das reportagens dos "enviados" e "metem os brutos", isto é, põem no ar as sequências em bruto, tal como chegaram dos "enviados" ou das agências. O "directo" é o maior incentivo à preguiça que se conhece. Dispensa trabalho e reflexão.» (link só para assinantes).

Ora, convém não esquecer, os excessos a que assistimos actualmente na televisão começaram pela rádio, quando se quis carimbar a "rádio em directo" com o selo que garantiria automaticamente a qualidade do produto radiofónico, conforme já referi aqui:

«E não basta a transmissão da actualidade em directo para que o efeito surpresa funcione. Aliàs, já é tempo de acabar de vez com o mito rangeliano da "rádio em directo", tal é o uso e abuso que se tem feito do conceito. Para além de já quase nunca surpreender (são as conferências de imprensa na hora dos telejornais, são as declarações previsíveis, são as entrevistas de circunstância), quando se justifica, e na falta de grandes repórteres, o directo em rádio (e já agora também em televisão), tende a ser formalmente pobre e a fazer apelo às emoções mais primárias, quando não é, pura e simplesmente, idiota."

sábado, 3 de maio de 2008

A edição em rádio

Continuo a achar que é uma falta de respeito pelos ouvintes repetir programas, transmitidos originalmente a uma determinada hora, num outro horário sem qualquer tipo de edição. Exemplo: este sábado, depois das 3 da tarde, no programa “Toda a Tarde” do RCP, ouvir dizer “bom dia” no decorrer da entrevista de João Adelino Faria a João Lagarto, transmitida dias antes durante a manhã. Quem apanha a entrevista a meio não sabe que, no início, avisou-se que se tratava de uma repetição. Ao proceder desta forma esqueceu-se que uma das características da rádio hertziana é ser irrepetível e deixar “ir para o ar” um “bom dia” às 3 da tarde, além de disparatado, é nitidamente uma desconsideração por quem ouve.

A meu ver, este é apenas um sinal de um quadro mais vasto que revela a importância, cada vez menor, dada à edição em rádio. Bem sei que sai mais caro, exige recursos técnicos e humanos, mas também sei que é a única maneira de se apresentar dignamente um produto previamente gravado (a não ser que a opção seja pelo live to tape e, nesse caso, tomam-se à partida os devidos cuidados para se evitar este tipo de “ruídos”).

Por analogia com o que se passa na imprensa ninguém ousaria passar para o papel de jornal a transcrição, pura e simples, de uma entrevista com as referências temporais que surgem ao longo de uma conversa, sem o devido enquadramento, nem com as interjeições (eh pá) ou as interrupções para justificar as ideias (um bom exemplo está aqui, onde se pode comparar o vídeo contendo excertos da entrevista com o texto escrito no jornal). Mas há rádios em que, jornalisticamente falando, parece que tudo é possível!...

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A minha amiga rádio não é possessiva

Estou em casa a ler um livro com interesse e prazer. E, chegado à hora das notícias, quero saber como vai o mundo.

Recuso-me a ligar a televisão porque, já sei, é mais possessiva do que a rádio na medida em que me obriga a aplicar dois sentidos (visão e audição). É também mais absorvente porque me impede de continuar a ler.

Assim sendo, opto pela rádio. Apenas com a audição, assumida como escuta secundária, e em acumulação com a leitura proporcionada pela visão, satisfaço a minha necessidade de conhecer a actualidade. E não me desligo do livro, o que seria bem mais improvável perante um caleidoscópio de imagens e sons.

A literacia e a escola

Durante muito tempo a escola e os docentes apropriaram-se da literacia como um feudo seu. Com a mediatização da sociedade e o advento da literacia mediática tal enfeudamento deixou de ser possível. Num recente trabalho da UNESCO (dica de Manuel Pinto em educomunicação/educomunicación) advoga-se que a aplicação das competências da literacia informativa exige a transferência dos modelos educativos para outros contextos:

"Standards have been created as means to guide information literacy work in the education sector and have been shown to have utility in this context (Emmett, and Emde, 2007). All published standards have a similar foundation. As generic constructs these standards have application to both the economic sector and to lifelong learning capacities, which is to be expected given the purposes of education to prepare people for civic life and to develop or maintain people’s employment capacities. However, as will be outlined below, the situated nature of the application of IL skills requires these standards to be translated into operational variables in various contexts."

Assim, a actividade de um crítico de televisão ou de um provedor dos leitores, por exemplo, pode ser bem mais didáctica na desmontagem, em tempo útil, das representações mediáticas do que as, muitas vezes, gongóricas construções dos académicos.

Cidadãos-jornalistas?

Vai por aqui uma grande discussão sobre os chamados "cidadãos-jornalistas". Eu limito-me a perguntar: e os jornalistas não são cidadãos?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O jornalista entre a proximidade e a distância

Para mim um bom jornalismo é independente e distanciado” – António José Teixeira em declarações ao jornal Público.

Quando António José Teixeira advoga que é preciso ser mais distante dos poderes económico e político para se fazer melhor jornalismo o director da SIC Notícias vai ao cerne da principal questão que envolve o jornalista. Por um lado, tem de haver um relacionamento com as fontes políticas e económicas, logo a proximidade é inevitável. Por outro, a demarcação dos terrenos, de uma e outra parte, tem de ser clara e rigorosa sob pena de haver uma promiscuidade que embota uns e outros. Só que, muitas vezes, essa linha de separação é demasiado ténue, o que se presta a todo o género de equívocos.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Gratuitos perdem gás

A Metro Internacional, o grupo pioneiro da imprensa gratuita a nível mundial, dá os primeiros sinais de crise. A notícia está aqui.

Quererá isto dizer que acabará por vingar o conceito de que os orgãos com informação primária prestam um serviço com um valor próprio que não se pode assemelhar a um produto estandartizado que reproduz informação vulgarizada através de diferentes plataformas?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A política e o entretenimento

Todos aqueles que têm uma visão muito séria da política e que apontam o entretenimento na informação e na política como um sinal distintivo dos tempos que correm, deveriam ter ouvido o professor norte-americano Michael Schudson, segunda-feira 14, na FLAD.

Aquele sociólogo dos media diz que a política sempre foi entretenimento e, invocando os rituais eleitorais do tempo dos fundadores da democracia norte-americana, lembrou que essa tradição já vem do século XIX.

Recusando diabolizar o entretenimento, como de resto já o havia feito relativamente ao consumo, Schudson advoga uma vinculação da cidadania ao entretenimento que, através dos media, pode ser utilizado como forma de educação. Aliàs, segundo o professor norte-americano, ainda está para ser escrito o grande livro sobre o entretenimento.

No entender de Michael Schudson, que critica o jornalismo cívico, mais importante do que ter acesso a uma informação puramente racionalista são os meios que o cidadão deverá possuir para monitorizar e controlar o ambiente social em que se insere.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

E as sinergias de grupo???

No Jornal da Uma, da TVI, ouvem-se declarações telefónicas do presidente do LNEC sobre a prioridade em avançar com a ligação ferroviária na TTT, antes da ligação rodoviária, com a menção “Cortesia da TSF”. Ora, Carlos Matias Ramos esteve esta manhã em directo no RCP, do mesmo grupo da TVI, a dizer exactamente a mesma coisa. Porque se recorreu, então, ao som de uma rádio exterior ao grupo?

segunda-feira, 24 de março de 2008

O Jornalismo e a Rádio

Quem se lembra dos anos 60 do século passado sabe que não havia jornalistas na rádio. Havia locutores (noticiaristas) que liam as notícias dos jornais, correndo até aquele exemplo extremo de um locutor que, a dada altura, terá dito: “O Chefe de Estado, como se pode ver na figura ao lado, inaugurou ontem mais uma unidade industrial…”

Exceptuando a informação desportiva e algumas reportagens de figuras ímpares como Fernando Pessa, Artur Agostinho ou Maria Leonor, o jornalismo radiofónico só começou a ter identidade própria com o serviço de noticiários do Rádio Clube Português, no final dos anos 60. Ainda assim, os "noticiaristas" do RCP não eram reconhecidos como jornalistas tout court. As crónicas parlamentares de Viriato Dias, no programa “Página 1” da Rádio Renascença, já nos anos 70, constituiam uma excepção à regra na medida em que eram asseguradas por um jornalista encartado.

Foi só após o 25 de Abril, mais concretamente em 1976, que a rádio passou a ter nos seus quadros jornalistas com carteira profissional, atribuída aos então designados redactores-locutores. Para além da redacção de notícias, os jornalistas da rádio passaram a ter também a responsabilidade de assumir os outros géneros jornalísticos, como a entrevista ou a reportagem, até aí assegurados indistintamente por outros profissionais.

A estabilização deste processo acabou por resolver os equívocos resultantes de situações em que profissionais de rádio não jornalistas pudessem, com a sua actuação, enviesar as técnicas e a deontologia próprias do jornalismo. Até que, passados mais de trinta anos, a concretização do projecto de uma rádio que se apresentou com ambições de ter um forte pendor informativo, o Rádio Clube (Português), vem relançar a ambiguidade ao colocar jornalistas e apresentadores/locutores a par, nas mesmas funções, como acontece, presentemente, na série de entrevistas a 20 personalidades do Porto, conduzidas por um apresentador e por um jornalista convidado ou, como também já sucedeu, apenas por dois apresentadores da estação.

A questão, de resto, não é inédita no RC(P) onde o programa “Debate Público”, um fórum de discussão com características eminentemente informativas, não é conduzido por jornalistas, mas sim por apresentadores/locutores, cuja função não está sujeita às normas de equidade, distanciamento e independência próprias do jornalismo.

Perante tal situação, fica a perplexidade que me leva a suscitar duas interrogações. Afinal, qual deverá ser o papel dos locutores/apresentadores, nos espaços com carácter jornalístico, de uma rádio assumidamente informativa? Poderão eles, em algum caso, não ser jornalistas?

sexta-feira, 21 de março de 2008

Imagem, som, audiências passivas e audiências activas

A ligação entre a linguagem televisiva e a linguagem radiofónica tem tradução no uso de técnicas comuns como a montagem, mas, do ponto de vista da recepção, há uma vantagem acrescida para a rádio: o som da palavra, da música, ou dos efeitos sonoros, consegue criar imagens na mente, mas o inverso é pouco verosímel visto que as imagens, só por si, não suscitam o som. Ora é essa dimensão globalizante inerente à envolvência sonora, consubstanciada através da criação das tais “pictures in the mind”, que torna mais intenso o diálogo com o ouvinte do que com o espectador.

Contrariamente ao vídeo, em que a imagem, supostamente ao mostrar tudo, remete as audiências para uma atitude passiva, na rádio os ouvintes sentem necessidade de ser activos porque há sempre algo a descodificar na textura sonora apresentada. Nesse sentido,a rádio insere-se mais intensamente no conceito de "obra aberta", de Umberto Eco, segundo o qual “toda a recepção é uma interpretação e, ao mesmo tempo, uma realização”.

Ao proporcionar um maior grau de liberdade na recepção por parte do ouvinte, o som da rádio, não sendo tão intrusivo como a imagem vídeo, abre-se a um diálogo, mesmo que seja em silêncio, e o contacto estabelece-se. Por isso se pode dizer que mesmo ainda antes de terem aparecido os programas de "call-in", os debates, os fóruns ou os passatempos radiofónicos, as audiências da rádio já eram activas visto que sempre tiveram necessidade de recorrer ao imaginário para atingir a plenitude da recepção sonora.

A composição radiofónica

A composição radiofónica, expressão entretanto caída em desuso, era aquilo que, até aos anos 70 do século passado, designava o trabalho de sonoplastia, sonorização e todo o tratamento sonoro a que eram sujeitas as produções de rádio.

No seu aparente pretenciosismo, a expressão continha em si um manancial de referências que delimitavam rigorosamente um conceito através do qual se pretendia guindar o trabalho radiofónico a um estatuto criativo que se foi perdendo e, como tal, é cada vez menos reconhecido.

Foi por aí que começou a minha vida como profissional de rádio - um estágio no sector de composição radiofónica da Emissora Nacional entre Novembro de 1975 e Janeiro de 1976 - e, esse facto, acabou por sedimentar a minha perspectiva sobre a importância do tratamento e da roupagem que devem exibir todos os conteúdos radiofónicos, sejam eles jornalísticos ou não jornalísticos.

Na altura, vivia-se ainda o rescaldo dos tempos áureos da ficção e do teatro radiofónico e foi nesse caldo de cultura, exemplarmente plasmado no livro "O Teatro Invisível" de Eduardo Street, que os meus sentidos despertaram para o jogo de palavras ouvidas ("horspiel" em alemão) que é capaz de criar "pictures in the mind", como dizem os ingleses.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Liberdade de recepção

O conceito original de liberdade de recepção foi desenvolvido por Philippe Breton (A manipulação da palavra, Edições Loyola, São Paulo, 1999) a partir da ideia de que a liberdade relativa à palavra é, com demasiada frequência, identificada tão somente com a liberdade de expressão.

Ora, as nossas instituições democráticas - diz Breton - protegem de modo rigoroso a primeira, mas interessam-se pouco pela segunda. "A possibilidade de manipulação da palavra vincula-se justamente a esse desequilíbrio. (...) Essa extensão da liberdade de palavra não apenas à liberdade de expressão, mas também à liberdade de mediação e, sobretudo, à liberdade de recepção corresponderia a uma etapa superior da democracia".

Tudo isto tem a ver com o âmbito deste blogue na medida em que, "um enunciado dado, entre determinados parceiros de uma interação, será manipulatório porque o público, por exemplo, não estará apto a decodificá-lo como tal". Por outro lado, nas comunicações exercidas através dos media ampliam-se as dificuldades: "uma mesma mensagem pode revelar-se manipulatória para uma parte do público e não manipulatória para outra, que já desarmou suas armadilhas" .

Segundo Philippe Breton, a manipulação da palavra tornou-se hoje comum nas sociedades modernas. "A democracia, que pôs a palavra no centro da vida pública, parece ameaçada pela proliferação das técnicas que visam nos obrigar, sem que nos apercebamos, a adotar determinado comportamento ou determinada opinião". Desta forma, só é completamente livre quem estiver em condições de dizer, autonomamente, sim ou não à recepção.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uma pergunta sobre a rádio de palavra

Com o advento do RCP (formato iniciado em Janeiro de 2007) entrou, definitivamente, no léxico radialista nacional a “rádio de palavra”, expressão derivada do inglês talk radio e apresentada, entre nós, como uma alternativa à rádio de notícias (news radio). O conceito foi definido pelo Director de Informação do RCP, Artur Cassiano, na Gala do 1º aniversário da estação, como uma forma específica de apresentar a actualidade, por contraponto a uma atitude inovadora de apresentar as notícias, papel que fora desempenhado pela TSF, rádio a que o próprio Artur Cassiano estivera ligado desde o início, faz agora vinte anos.

E o que caracteriza, então, esta forma distinta de apresentar a actualidade? Fundamentalmente, a participação de múltiplos convidados (mesmo que não se tenham confirmado as 20 personalidades todas as manhãs em estúdio, como prometera o Director da estação Luís Osório) com o intuito de pontuar, analisar e divulgar os aspectos que vão fazendo a história dos dias.

Chegado a este ponto, é altura de colocar a pergunta que me suscita dúvidas bastantes para problematizar a estruturação deste formato radiofónico.

No actual panorama mediático, em que o entretenimento tende a moldar a informação, em que os interesses comerciais se entrelaçam com critérios editoriais, em que as fontes profissionais dispõem de recursos humanos e técnicos que suplantam os próprios media, quem, em última instância, determina maioritariamente o quem e o quando no caudal de personalidades convidadas a participar numa rádio de palavra?

Numa primeira categoria, poderemos dizer que a participação dos ouvintes, seja em debates sobre assuntos públicos ou em espaços mais confessionais ou mais exibicionistas, é sempre, e em primeira instância, determinada pela estação, uma vez que a entrada em antena pressupõe uma inscrição prévia. No entanto, a experiência proporcionada pela audição de muitas horas destas emissões evidencia que não parece ser aplicado nem sequer um critério de participação que evite repetições, tal é o número dos mesmos ouvintes que é possível ouvir, recorrentemente, em antena. Resta saber se tal se deve à existência de grupos organizados que impedem a variabilidade de participações ou se resulta, pura e simplesmente, da escassez do auditório.

Numa segunda categoria, relativa às personalidades convidadas a participar na emissão, a pretexto deste ou daquele motivo – excluindo os comentadores habituais, esses, a priori, escolhidos pela estação, se bem que dentro dos condicionalismos do actual panorama mediático – acumulam-se no meu espírito uma série de interrogações, que passo a enunciar.

De entre todas as personalidades convidadas, qual a percentagem em que a iniciativa do convite partiu da estação, tendo em vista os seus próprios critérios? E quando é que se acedeu às propostas e insinuações de entidades externas, como agências de comunicação, assessorias, etc ? Aliàs, a mesma questão se pode pôr relativamente às notícias produzidas a partir das propostas das fontes profissionais. Estas iniciativas são, de um modo geral, aceites ou tendem a ser, maioritariamente, rejeitadas? Quanta conversa sobre livros, filmes, exposições ou peças de teatro configura simples acções de promoção, subestimando os critérios jornalísticos? Quantas instituições ou personalidades públicas ou privadas acedem à emissão apenas porque quem trata da sua imagem quis “vendê-las” e não porque quem detém a antena tivesse ido às compras?

Já sabemos que o mercado é um ponto de encontro onde se satisfazem compradores e e vendedores. Porém, haverá que salvaguardar especificidades inerentes à responsabilidade social que envolve o mercado mediático, pelo que os media não podem abdicar de ter uma palavra decisiva em cumprir a sua função de escolha, a sua matriz editorial.

Todas as questões acima expostas põem-se relativamente a qualquer formato radiofónico. Porém, colocam-se ainda com maior acuidade numa rádio de palavra na qual alguns dos espaços de debate, de entrevista e de participação dos ouvintes nem sequer são conduzidos por jornalistas.

Assim sendo, só uma rádio editorialmente blindada às insinuações do Estado e do Mercado, com recursos humanos qualificados e meios materiais consistentes, estará em condições de ser ela própria a definir toda a sua carteira de convidados, bem como a sua própria agenda mediática.

Caso contrário, a rádio de palavra corre o risco de transformar-se numa rádio de palavreado, sem qualquer consistência, ou, no pior dos casos, numa feira de vaidades de um circo mediático onde aparecem sucessivamente palhaços ricos e pobres, malabaristas, contorcionistas, animais mais ou menos selvagens e domadores.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O que vale a participação do público na rádio e na TV?

Uma notícia e um artigo recentes, aqui e aqui, proporcionaram-me novos elementos de reflexão para aplicar à pergunta que dá título a este post e que, no fundo, retoma a ideia-chave da linha de investigação que venho desenvolvendo desde 2005, tendo em vista o conhecimento daquilo que está subjacente aos processos interactivos na rádio.

Alguns dos desafios levantados pela interacção que ocorre no espaço público mediático foram bem problematizados pelo jornalista e professor brasileiro Muniz Sodré: «Conversa-se na televisão, entrevistam-se personalidades ad nauseam, realizam-se audiências públicas nas várias instâncias do Legislativo, mas o resultado constante é a inanição dos discursos. Em outras palavras, o excesso de publicidade das expressões individuais não define aquele espaço em que se constitui politicamente a cidadania na sociedade ocidentalizada, isto é, o espaço público».

Ora, se o excesso de publicidade das expressões individuais já não chega para definir o espaço público, como poderemos vir a enquadrá-lo? Antes de mais, há que sublinhar que esta banalização e vulgarização dos discursos corresponde ao fim de um período em que coincidiam o espaço público e o espaço político. Por outro lado, na dita Sociedade da Informação, é o próprio conceito de cidadania que está também ele em mutação, alargando-se a outras vertentes para além do estritamente político.

Seguindo o pensamento de Muniz Sodré: "Na Era da Informação, as pessoas estariam mais voltadas para uma orientação relativa ao consumo ou ao entretenimento do que para a factualidade de natureza político-social tradicionalmente implicada nas notícias e nos debates relativos à condução política da sociedade." Sendo assim, parece certo que vamos ter de contar com o consumo e com o entretenimento para ajudar a definir o espaço público, conforme já desenvolvi aqui.

Todavia, a emergência de produtos mediáticos híbridos, nos quais a cidadania deixou de ser apenas sócio-política e passou a ter igualmente uma dimensão cultural e económica vinculada ao consumo, coloca novas questões. Já não basta saber o que vale a participação do público na rádio e na TV (a tal publicidade das expressões individuais no espaço público), mas também quanto vale essa mesma participação.

No Reino Unido, no ano passado, vieram a público vários escândalos envolvendo operadores televisivos que solicitavam a participação do público nos programas através da utilização menos ética de chamadas telefónicas de valor acrescentado. Agora, com o intuito de travar a desregulação daquilo a que poderemos chamar de "mercado do espaço público", o organismo regulador dos média ingleses (Ofcom), pretende instituir regras mais apertadas para os operadores. Segundo disse um responsável do Ofcom, "os telespectadores devem estar confiantes de que serão tratados de forma justa e consistente quando interagem com os programas televisivos”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Nos bastidores da política


A entrevista ao canal televisivo Cuatro tinha terminado quando o chefe do governo espanhol foi apanhado. Em conversa com o jornalista, Rodriguez Zapatero reconhece que lhe interessa criar um ambiente de tensão e de dramatização durante a campanha para as eleições legislativas em Espanha. Uma declaração de princípios revelada em privado por alguém que, paradoxalmente, dirige críticas públicas à oposição do PP por, alegadamente, ser uma fonte permanente de tensão na sociedade espanhola.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

As três palavras-chave para a reinvenção da rádio

Muito se tem dito e repetido sobre a crise da rádio, o impasse em que se encontra actualmente o meio, face à transição para o digital. Neste quadro, passo a enumerar as três palavras-chave que, do meu ponto de vista, traduzem os conceitos fundamentais que devem ser explorados para que a rádio possa sobreviver:

A estética

Antes de mais, a rádio é som, seja nas suas componentes de palavra, de música, ou de criação de ambientes sonoros que podem ir do silêncio absoluto até ao incómodo ruído. Perante esta vasta paleta de tons e sons é óbvia a importância que deve ser atribuída à sonoplastia e à sonorização. O pouco cuidado formal, fruto do desinvestimento que o meio rádio tem vindo a sofrer nos últimos anos, ajudou a que se chegasse a um ponto em que quase deixaram de ser questionadas a pertinência do tratamento sonoro, as características elocutórias, a concepção plástica do material emitido. Assim sendo, foi ficando por caminhos ínvios o idealismo que me levava a declarar, no Manifesto Cacimbo 73, com a impetuosidade e a ingenuidade própria dos 20 anos, que a arte radiofónica, definitivamente, era um facto. Desde então para cá, o conceito da rádio entendida como um objecto artístico foi regredindo sendo, hoje em dia, praticamente residual. O desenvolvimento da indústria não se compadeceu com as veleidades estéticas e o que acabou por imperar foi o fast-food radiofónico. Todavia, a mais recente evolução tecnológica, aliada à exigência decorrente da segmentação dos públicos, abriu uma janela de oportunidade para a revalorização da estética radiofónica se esta souber constituir-se numa mais-valia para a indústria.

A emoção

O som, antes de ser psíquico, é físico. Daqui decorre, imediatamente, o princípio de que nunca deve ser escamoteada a repercussão fisiológica da matéria sonora. Por outro lado, o ouvido é um sentido primordial. Antes de desenvolver qualquer outro sentido, mesmo antes de ver o que quer que seja, já o feto ouve correr os fluxos sanguíneos das artérias e das veias na barriga da mãe. Assim sendo, a envolvência auditiva começa a manifestar-se ainda antes do nascimento e acaba por desencadear processos cognitivos particulares que nunca irão deixar a razão, própria do ser humano, anular completamente a emoção associada aos sons. É esta sensibilidade e a hiper-importância específica do mundo do ouvido que o meio rádio não pode descurar. De resto, a inter-dependência entre a razão e a emoção, que as neurociências tão bem têm documentado nos últimos anos, encontra na produção radiofónica um vasto campo de análise. Uma voz imaculadamente límpida pode não resultar significativamente se não transmitir algum tipo de empolgamento. Assim como um registo tecnicamente perfeito pode perder-se no éter se não conseguir fazer passar um qualquer sentimento. É, justamente, este lado afectivo que produz a magia do som e é da amálgama com os factores racionais que resulta uma complexidade do fenómeno auditivo que só o contributo da emoção consegue explicar plenamente.

A surpresa

Finalmente, a surpresa. A rádio tem de surpreender. Não é por acaso que uma emissão limite como a encenação que Orson Welles fez de "A guerra dos mundos" ficou para sempre como um paradigma da rádio. Pelo contrário, a previsibilidade é o primeiro passo para que o ouvinte mude de estação ou se desinteresse do que está a ouvir mesmo se, porventura, não desligar o receptor. E não basta a transmissão da actualidade em directo para que o efeito surpresa funcione. Aliàs, já é tempo de acabar de vez com o mito rangeliano da "rádio em directo", tal é o uso e abuso que se tem feito do conceito. Para além de já quase nunca surpreender (são as conferências de imprensa na hora dos telejornais, são as declarações previsíveis, são as entrevistas de circunstância), quando se justifica, e na falta de grandes repórteres, o directo em rádio (e já agora também em televisão), tende a ser formalmente pobre e a fazer apelo às emoções mais primárias, quando não é, pura e simplesmente, idiota. Porém, se conjugarmos numa produção formalmente apurada, emoções dignamente representadas com motivações de ordem racional, fazendo uso dos processos interactivos facilitados pelo desenvolvimento tecnológico, poderemos verificar como o espaço público da rádio no século XXI ainda pode ser surpreendente.

Concluindo, o futuro da rádio não estará em causa se a estética for apurada, se a emoção não for completamente submetida à supremacia da razão e se não for descurada a capacidade de surpreender. Já sabemos que as playlists limitam a surpresa nas rádios musicais, mas um programa informático mais aleatório, conjugado com uma apresentação formalmente inovadora e estabelecendo uma forte ligação emocional, pode ultrapassar o handicap e fazer a rádio ombrear com a opção por leitores de mp3. E o mesmo se passará com qualquer outro formato. Do relato das actividades desportivas às performances (as artes performativas podem ainda vir a ter um interessante ciclo de vida na rádio), da entrevista à reportagem. E nem sequer a rádio de palavra (tida como insubstituível) resistirá ao digital se se limitar apenas a ser instrumental, racional e previsível, isto é, um bocejo. Se quiser vingar, qualquer formato, seja ele qual for, terá de ser esteticamente apelativo, emocionalmente forte sem deixar de ser digno, nunca perdendo de vista a capacidade de produzir algum efeito de surpresa junto de quem ouve.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Obesidade mental

O texto circula na Internet, em vários blogues e páginas escritas em português, citando um suposto livro que teria por título "Mental Obesity" e cujo autor, Andrew Oitke, seria um alegado catedrático de Antropologia de Harvard. O problema é que não existe nenhuma outra referência disponível, nem do livro nem do autor. A Amazon não detecta a obra e a Universidade de Harvard desconhece o professor. O que não invalida que se deixe de reconhecer que o texto, seja lá de quem for, está bem escrito e lança pistas pertinentes para a reflexão sobre o ponto a que chegou a dita sociedade da informação:

Foi em 2001 que o prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro Mental Obesity, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral. Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. «Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada. Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e do conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os "hamburgers" do espírito, as revistas e romances são os "donuts" da imaginação.» O problema central está na família e na escola. «Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas.

Com uma "alimentação intelectual" tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam, depois, uma vida saudável e equilibrada.»
Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado Os abutres, afirma: «O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.» O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante. «Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.» Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura. «O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto.» As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras. «Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo. Não se trata de uma decadência, uma "idade das trevas" ou o fim da civilização, como tantos apregoam. É só uma questão de obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental.»

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Porque será?

Jornalistas cansados da profissão. Vi a dica aqui.

Infoinclusões... dos outros

Como é costume, Manuel António Pina disse tudo em pouco mais de uma centena de palavras.

"O inquérito do costume". De Manuel António Pina no JN.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Mais uma acha para o debate

"Cada vez mais, a informação está previamente organizada, não pelas redacções, não pelos jornalistas, mas pelos agentes e pelos assessores. Quem tem informação manda em quem investiga, escreve e transmite. Grande parte da informação é encenada e manipulada, de acordo com as conveniências. (...) Só a independência dos jornalistas poderia fazer frente a este domínio inquietante. Mas esta é um bem raro. Até porque os empregos na informação são cada vez mais precários." - António Barreto no jornal Público de 27/01 (link só para assinantes).

Será que é preciso o olhar do sociólogo para detectar a debilidade e a manipulação de que é alvo a classe jornalística face ao poderio das organizações de comunicação? Definitivamente, os jornalistas reflectem pouco sobre os condicionalismos inerentes ao exercício da profissão.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Só para abrir o apetite...

" (...) a relação entre políticos e agências de comunicação, publicitários e técnicos de marketing é um dos sintomas da degradação da política contemporânea." - Pacheco Pereira no jornal Público de 26/01 (link só para assinantes)

"Acho que Santana Lopes ganhava em ter consultores de comunicação" - Luís Paixão Martins no seu blogue Lugares Comuns.

Este debate, entre os dois, promete!

sábado, 19 de janeiro de 2008

Mais educação, maior inclusão

Mais do que a idade ou a capacidade económica, é a educação o factor fundamental que determina a maior ou menor inclusão digital nos EUA. Segundo dados do Pew Internet, somente 7% dos norte-americanos que concluiram formação superior estão fora da rede.

(dica de marcos palacios em Jornalismo & Internet)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Para onde vai a TSF?

Os comandantes já começaram a abandonar o barco. O director José Fragoso foi para a RTP. O director-adjunto Luís Proença está a caminho da SIC. A navegação à vista foi entregue a Paulo Baldaia, uma solução encontrada no seio do grupo Controlinveste, a quem a administração pediu para "manter a TSF como uma grande estação e a maior rádio de informação em Portugal". Só não se sabe até quando. Tendo em conta as alterações que se anunciam na lei da rádio e a assumida aposta da Controlinveste, este ano, na televisão e no desporto, o que é que poderá sobrar para a rádio de informação?

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Luís Osório e Paulo Sérgio voltam a cruzar-se na rádio

Paulo Sérgio é o novo director de programas do Rádio Clube Português (RCP). Segundo o director da estação, Luís Osório, a escolha justifica-se pelo facto de Paulo Sérgio ser "uma das pessoas mais bem preparadas no meio rádio".

Os caminhos de Luís Osório e de Paulo Sérgio voltam a cruzar-se na rádio depois de, em 2003, o actual director do RCP ter iniciado o seu percurso radiofónico como comentador num programa conduzido por Paulo Sérgio na Rádio Renascença. Nesse mesmo programa participava também o psiquiatra Daniel Sampaio, actual comentador do RCP.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Infoinclusões... dos outros

Coisas que os outros sabem. De João Villalobos no Corta-fitas.
Para quê o tal canal? De João Pinto e Castro no ...bl-g- -x-st-.